A paper prepared for the Seminar on “Poetry in Time Of War And Banality”, Sao Paulo, May-June 2006; this translation into Portuguese by Odile Cisneros published in Sibila 10 (2006)

For the English original, “Plurifying the Languages of the Trite”, click here or here (Sibila online). Also available in translations into Norwegian by Paal Bjelke Anderson (nypoesi.net) and into Dutch by Tot van t’ Hof (de Contrabaas), and into Finnish by me.

Gostaria de agradecer a Régis Bonvicino e Alcir Pécora pela iniciativa deste seminário, assim como pelas propostas que eles apresentam no ensaio de abertura. Estas são minhas respostas no momento. Estou ciente de que minha aproximação pode parecer um pouco abstrata e geograficamente restrita, teori-européia, talvez até o ponto de contradizer meu argumento central em favor de um global e absoluto pluralismo de formas, conteúdos e linguagens. Prefiro deixar a correção desse ponto para outras práticas presentes e futuras, até mesmo este seminário.

Alcir e Régis afirmam a “incapacidade de a poesia, como síntese da atividade intelectual e criadora, lidar com a estupidez e a barbárie”. Eu leio nessa afirmação um ideal bastante elevado da poesia. Supõe que a poesia, pelo menos num momento da história, teve uma relação, talvez especial, com a estupidez e a barbárie. Gostaria de apoiar essa afirmação de uma maneira concreta. Para mim, isso equivale a dizer que a poesia é anti-ideológica, que tem a capacidade de olhar a estupidez e a barbárie no olho – também no sentido de aceitá-las. Nesse último caso, a capacidade – sempre precária – da poesia para desempenhar o papel da “síntese da atividade intelectual e criadora” também se baseia nisso – no poder que tem para abranger a estupidez e a barbárie, entre outras coisas: a idéia ou o ideal da inclusividade da poesia. Na história da poesia, esse ideal assumiu duas formas mutuamente contraditórias: por um lado, a noção da poesia como “nulidade”, como brincadeira, existindo apenas para si, “não fazendo nada acontecer” (e, portanto, gozando da liberdade de “fazer o que quiser”); por outro lado, está o ideal do sublime em poesia. Nessa última modalidade, o conceito fundamental, a partir de Kant, foi a mediação: por exemplo, entre o pensamento e a experiência dos sentidos (que considero banal no sentido que as emoções são banais): e também entre o que é inteligível, “racional”, e aquilo que não o é – de novo a tendência fundamental é na direção da inclusividade, “abranger tudo”. Em ambas as formas eu gostaria de salientar a dimensão da incompreensibilidade: a necessidade e capacidade da poesia de se aproximar e até de expressar a não-compreensão, aquilo que não podemos compreender, o fato de que não podemos compreender tudo, até mesmo o que a incompreensibilidade é (nunca longe da estupidez.).

Se for o caso que a poesia perdeu tal capacidade, isso seria por dois motivos. Poderia ter perdido sua conexão com o ideal, ou – um caso ainda mais grave – a estupidez e a barbárie poderiam ter adquirido novas dimensões, tornando-se fortes demais para a poesia abrangê-las, e até mesmo tornando-se capazes de engoli-la. Acredito que Régis e Alcir se referem a essa possibilidade quando falam da “violência” que se deriva “justamente de seu aspecto continuado”.

Uma maneira fácil de reagir a essa perspectiva pessimista seria simplesmente deixar tudo como está. Não é verdade que a poesia sempre evolui reagindo a sua própria condição, expressando sua insatisfação com a mesma, revoltando-se, virando-se contra si própria? (E não é verdade que, fazendo alusão de passagem a um dos temas do seminário, imita e reproduz a estrutura da Guerra? [cf. Poetry Wars]) Talvez o melhor seria deixar que a poesia lidasse com isso ela própria – depois de tudo, não podemos começar a ditar ordens para ela, e não apenas porque ela “não é nada” e, em qualquer caso, sempre se orienta para a “incompreensibilidade”. Por outro lado, o fato de que não aceito imediatamente essa solução fácil revela meu otimismo. Embora com notáveis e complexas ressalvas, gostaria de salientar, na situação descrita por Régis e Alcir, uma dimensão que, apesar de tudo, abrirá novas possibilidades para a poesia – e, ousaria afirmar, para ela em particular – “se tornar (cons)ciente de si própria”. Eis minha resposta geral, já contida numa das formulações de Régis e Alcir: “é bom que se diga que tampouco o presente nos pertence” (grifo meu). Mais tarde, vou sugerir que – de novo com sérias ressalvas – os tempos realmente mudaram, e que um dos sinais dessa mudança é que eles já “não nos pertence[m]” da mesma maneira que eles já nos pertenceram.

Régis e Alcir parecem falar de um “novo tipo de mundo”. Cito novamente o ensaio: “[um] mundo que se globaliza e desorganiza em iguais proporções”; “conflitos locais, étnicos, movidos a ódios, sectarismos e tragédias domésticas”; “os projetos nacionalistas [tornaram-se uma] estratégia para reforçar interesses corporativos”; “o internacionalismo, longe de abrir-se para experiências humanas pluralistas e democráticas, reduz-se a estratégia de exploração econômica”. Permanecendo um momento no nível histórico-político dessas caracterizações, eu vejo que se referem a uma nova circunstância de questões, lutas, assombros, desapontamentos, esperanças e irresolução que hoje conhecemos com o nome de Globalização. Ainda, com reservas, acredito que a queda do Muro de Berlim em 1989 e a expansão da internet alguns anos depois atuaram efetivamente como pólos, uma porta para um mundo completamente novo onde nada é o que já foi. Escolhi propositadamente falar desses dois eventos ou fenômenos que talvez não estejam conectados na mente de todos, e que poderiam ser considerados por alguns como “simplesmente” a superfície da história: acredito que eles estão interligados e talvez ainda não sejam compreendidos todos os seus “profundos” significados.

Ao se dizer “Globalização”, torna-se preciso pronunciar outra palavra que – talvez por motivos relacionados com o assombro acima mencionado – não figura no ensaio de Régis e Alcir: o Capitalismo. Eu, pessoalmente, a pronuncio ainda com maiores ressalvas do que as anteriormente expressadas: isso tem a ver em parte com minha história pessoal, da qual falarei em breve – uma expressão do poder da palavra articulada. Nasci numa família de camponeses finlandeses em 1951. Entrei na poesia relativamente cedo: estreei em 1967 com uma coleção escrita com a caneta de um rapaz de 15 anos (pelo menos um poema foi escrito como exercício nas lições de finlandês), ou com uma máquina de escrever portátil que tinha comprado especificamente para esse propósito. Por motivos que explicarei mais adiante, meu caso é aquele que Régis e Alcir descrevem no ensaio: “uma atividade infanto-juvenil que […] abandon[ei] tão logo […] cheg[uei] à vida adulta.” Como parte da atitude radical universal de minha geração (os hippies, 1968 na França e na Alemanha etc.) e depois de ter lutado contra isso durante algum tempo, acabei me unindo ao Partido Comunista Finlandês – mas não a sua “minoria” stalinista, como fizeram muitos de meus amigos, e sim a sua maioria eurocomunista moderada, algo que estava menos na moda. De 1973 a 1983 mais ou menos, fui um apparatchik de tempo integral, em postos de relativa responsabilidade, como, por exemplo, o de assistente pessoal do Secretário Geral, “o secretário político do Secretariado” e, depois, secretário político de dois Ministros do Gabinete (no final dos anos 1970, o Partido fazia parte do governo de coligação). No começo dos anos 1980 fui, durante um breve período, um dos líderes de um movimento de reforma dentro do partido conhecido como “A Terceira Linha”, servindo nesse papel como membro do Comitê Central. Eu era um “ideólogo”, redator de discursos e declarações: de fato, eu “escrevi” quase tudo o que o partido tinha a dizer “oficialmente” nesse período. Nesses anos, não escrevi poesia nem sequer cantos de combate. Por outro lado, lembro como já nessa época eu pensava em minha atividade política como uma extensão da poesia “por outros meios”, como poesia “num estado prático”, por assim dizer (mais tarde voltarei a essa questão) [1].

Levando em conta essas observações, minhas ressalvas a respeito da palavra “Capitalismo” poderiam se reduzir ao fato de que essa palavra – ainda e especialmente hoje em dia – é impossível de pronunciar sem ao mesmo tempo depender de ou cair em certas suposições teleológicas histórico-filosóficas, tais como as leis do movimento da história, as noções de suas “forças móveis”, suas “fases pré-determinadas”, sua meta final, e assim por diante. (Do ponto de vista da esquerda: a idéia da direita de uma “mão invisível” não é menos problemática.) Já estávamos perto desse tipo de suposição ao dizer que “os tempos mudaram”. As correspondentes noções dos “sujeitos da história” são igualmente problemáticas e igualmente indispensáveis: de fato, Régis e Alcir aludem à tendência dessas noções se tornarem seu oposto ao falar do que aconteceu com o “internacionalismo” (termo que alguma vez foi a definição do proletariado) ou com os “projetos nacionais” (no marco dos quais quase todas as reformas que o proletariado quer ver como suas se concretizaram). Também, a meu ver, Régis e Alcir falam do mesmo problema ao unir os adjetivos “locais” e “étnicos”, conceitos freqüentemente idealizados na “luta contra a globalização”, com substantivos como “ódios, sectarismos e tragédias domésticas” – aproximando-se da crítica desses conceitos que fez o pensador político italiano Antonio Negri, um notável teórico da “globalização democrática”.

Confesso que com o tempo, ou a idade, virei um tradicionalista no que diz respeito a essas noções. Ainda me considero socialmente radical, mas meu radicalismo se baseia em conceitos afins àqueles de um certo conservadorismo inglês (cf. Eliot) que supõem uma deficiência fundamental na natureza humana e concebem a “evolução” como uma aprendizagem paulatina, uma tradição que a acompanha e o legado de tal tradição às gerações futuras. Não compartilho tal desconfiança na natureza humana (apesar disso, minha confiança com freqüência falha); no entanto, minha desconfiança se dirige à sociedade humana: sendo que o marxismo, o liberalismo, o fundamentalismo islâmico e a socialdemocracia – as quatro ideologias políticas, ou fundamentalismos, do mundo contemporâneo – surgem de uma noção da sociedade “ideal”, sinto-me obrigado (até contra minha vontade) a supor uma deficiência fundamental em todas as organizações sociais humanas (até mesmo em todos os “movimentos” e talvez neles em particular). “[A] sociedade sempre foi um pergunta para mim/ sobre como ela pode existir”, escrevi num poema dos anos 1980.

Dou-me conta de que estou preso entre dois tipos de pensamento ou atitudes de minha juventude que, se não são derivadas diretamente de Marx ou do marxismo, pelo menos se consolidaram (ossificaram?) sob sua influência: em primeiro lugar, a convicção da necessidade de “se libertar da pré-história da humanidade”, isto é, uma profunda desconfiança de tudo aquilo que é “herdado”, “orgânico”, “genuíno”, “representa raízes” etc. – algo que, ao mesmo tempo, implica uma confiança no potencial humano. (Em minha própria vida segui esse ideal de expandir horizontes, de questionar o obsoleto, de um contínuo abandono…). Em segundo lugar, a noção do Capitalismo como a única relação ou estrutura social capaz de provocar continuamente tal “separação das raízes”, “destruição do obsoleto” e “torná-lo fumaça” (sem no entanto ter uma meta definida). Portanto, até mesmo a “Tradição”, para mim, é mais uma “tradição de rupturas”, de uma constante separação do obsoleto: a idéia de ilhotas de liberdade, sempre temporárias, marginais, com fronteiras instáveis e proporcionais, mas só parcialmente, à história (nem contínua nem teleológica) em anteriores (ou simultâneas, mas “distintas”) tentativas do “mesmo”. Hoje diria que o Capitalismo nunca produz tais ilhotas, mas – parece – nunca deixa de produzir possibilidades para ambas. Não posso acreditar nelas; não posso deixar de acreditar nelas. Talvez eu resumisse minha atitude em duas formulações dos grandes pensadores marxistas que me influíram na juventude: o slogan de Gramsci, “pessimismo do intelecto, otimismo da vontade,” e o título das anotações do filósofo marxista francês Louis Althusser (feitas num hospital psiquiátrico): “Materialismo aleatório”. Em todo caso, para mim, a história é aberta. Aberta, mas cega. Cega porque aberta.

Como disse, vi minha atividade política de esquerda como “uma continuação da poesia”. Agora – antes de continuar com o Capitalismo – me apresso a generalizar: o que já disse sobre a história, a meu ver, se aplica à “evolução” da poesia também. Considerando minha primeira poesia, me sinto tentado a polemizar contra a caracterização, um tanto pejorativa, que Régis e Alcir fazem de grande parte da poesia contemporânea como um hobby – contrapondo-se com a “seriedade”. Nunca senti uma necessidade “séria” de me expressar, nenhum desejo juvenil de “desabafar”; apenas um (“bem-humorado”) apetite de produzir algo novo (para mim), um tipo de desejo “vazio” que não sabe o que procura. E a colisão – lateral, diria – desse desejo com a ainda jovem tradição da moderna ficção finlandesa (Paavo Haavikko, Pentti Saarikoski; a obra fundamental desse movimento, Tiet etäisyyksiin [Ways to the Distance], de Haavikko, se publicou no ano em que nasci, 1951). E tão vivida quanto a vacuidade de meu desejo é minha lembrança de como a poesia dessa tradição carecia de sentido para mim. Ou, melhor dito: eu estava capacitado para “entendê-la” no sentido convencional da palavra. O mesmo se aplica às condições de existência de minha poesia posterior. Por uns quinze anos, a partir de 1983, trabalhei em tempo integral traduzindo para o finlandês romances, contos policiais, memórias, obras de sociologia, filosofia. ao mesmo tempo em que fazia traduções técnicas e de negócios: publicidade, contratos, textos técnicos de biologia e psicologia. (Essa atividade, como minha atividade política, confrontou-me com a natureza social da linguagem, ou, como direi depois, com sua outredade.) Durante esse tempo também refleti bastante, não apenas sobre as experiências político-sociais de minha juventude mas também sobre a linguagem e a literatura, e tive revelações que me ajudaram a “entender” a tradição que tinha me estimulado a escrever meus primeiros poemas. Hoje posso dizer categoricamente que, apesar de ter tido muitas “reflexões” (inclusive as aqui apresentadas), nenhuma delas por si conseguiu me levar de volta à poesia. Nada surgia apenas do “entendimento”, “tema” ou “mensagem”. Acontecia o contrário: quanto mais “entendia” minha própria tradição, mais ficava claro para mim que não poderia partir dela, distanciando-me, para lugar algum. Para que a segunda parte de minha obra “decolasse” (desde 1991, publiquei quatro livros de poesia e, no outono de 2002, inventei o “Google Poem Generator” que considero parte de minha obra poética), foi necessário um novo confronto lateral, dessa vez com uma tradição estrangeira: a Language Poetry norte-americana. Aqui também desejo me expressar literalmente. Não foi uma questão de “entendimento” nem de “influências”, de seguir uma certa “tradição” da Language Poetry [2]. O que interessava na Language Poetry não eram seus pressupostos básicos, mas, de novo, exatamente o fato de que eu não podia sequer imaginar entendê-la: por causa da distância geográfica e cultural mas também porque muita dessa escrita não se escrevia no horizonte do compreensível. Ou, ao menos, podia-se “entender” que a escrita Language não tinha a intenção de ser “entendida.” Em termos simples, eu diria que, como na história propriamente dita, não existe evolução contínua nem teleologia, e tampouco na história da escrita, mas não há progresso sem influências: a mente vazia e seu outro incompreensível: sempre de um outro lugar. Sempre lateralmente.

De outro ponto de vista, diria que essas duas experiências da “incompreensibilidade”, combinadas, ensinaram-me o ABC do pensamento, que resumo assim: antes de mais nada, a poesia é pensamento – apenas uma forma de pensamento na qual, com freqüência, certas contradições internas podem ser levadas mais longe e reveladas mais abertamente do que em qualquer outra. Em segundo lugar, o pensamento não é a atividade de um sujeito auto-expressivo, um “raciocínio” ou “racionalização”, não é uma tomada de consciência das proporções entre as coisas, mas, pelo contrário, é se expor à desproporção das coisas, ao “não-entendimento”: criar conceitos, como se diria na nova teoria francesa. Em poesia, pelo menos, o pensamento também chega até nós de um outro lugar, deixando-nos “fora de nós mesmos”. É não-subjetivo, mas não comunal, no sentido de “pertencer a uma comunidade” [3]. Num certo sentido, isso quer dizer que a poesia não pode ser política, e ainda, deve resistir a toda tentativa de se tornar socialmente útil. Se isso parecer derrotista demais, gostaria novamente de citar Antonio Negri – noto a insistência de Negri em ver a multidão, para ele a força revolucionária da era global, não como uma coleção de indivíduos, mas de singularidades (um conceito do qual farei uso mais para frente). Como a resistência para Negri, a poesia para mim não pode existir no contexto de um Contrato Social no qual é necessário supor a existência de um sujeito histórico (a pátria, o povo, as classes operárias. a literatura. o movimento. a empresa.) com o qual o indivíduo/poeta se identifica, da mesma maneira que os sujeitos individuais se tornam “cientes” por meio da ideologia.

Voltando à Globalização, como indiquei, até um certo ponto compartilho o pessimismo de Régis e de Alcir – tanto no que diz respeito à situação da poesia como do mundo. Há na verdade muitas razões para se pensar que este “novo mundo nosso” (que emergiu com a queda do Muro e a chegada da internet, que vejo precisamente como o mundo do Capitalismo maduro ou desatado) é uma época de um novo tipo de Barbárie, ou Guerra e Banalidade. Não apenas a trivialidade da indústria global dos meios de comunicação, não apenas o regresso da guerra como uma auto-evidente continuação da política mas também como a “midiatização” da guerra (da primeira guerra do Iraque, que foi uma “guerra da mídia”, até a recente controvérsia da caricatura na qual a mídia quase foi o objeto da guerra) com a simultânea militarização da mídia (cf. o papel central da concorrência banal, no sentido de uma luta pela sobrevivência, algo que acontece em muitos dos programas da reality-TV e nos filmes). Em mais de um sentido, essa banalização também parece ter devorado a poesia, que segue “a reboque da tecnologia, do mercado e da voracidade comunicativa e midiática”, como escrevem Régis e Alcir, e em muitos casos vira uma parte subordinada da indústria da mídia. Para nos opor a essa situação, temos apenas a dissolução e a fragmentação de todo tipo de resistência. ficará espaço para um otimismo da vontade, especialmente depois de limitar as condições de sua possibilidade da maneira que indiquei acima – pois não falei de uma poesia “sem conseqüência política ou estética libertadora” (nas palavras de Régis e Alcir)?

Estou convencido de que haverá espaço – e de que a poesia pode recuperar sua “perspectiva e urgência” aproveitando precisamente sua relação particular com a estupidez e a barbárie da qual falei no começo: em geral, enfatizando, sempre mais radicalmente, sua própria insignificância e renovando constantemente sua relação com sua própria incompreensibilidade. Ciente de que isso tudo pode parecer um discurso vazio, permito-me proceder por meio de um contra-exemplo. Uma solução ao problema da marginalização e à falta de conseqüência da poesia que se escuta com freqüência é o que eu chamaria uma atitude do sublime baseado na linguagem. Por exemplo, num país como a Finlândia, com uma língua menor e ainda fundamentalmente monocultural, a poesia se vê sempre tentada a se legitimar por meio de sua relação especial com a linguagem (ordinária). Aqui a linguagem, um meio de comunicação interpessoal, também é supostamente a fonte de significados comuns: assim, a claridade, transparência, pureza etc. da língua é vista como a garantia da estabilidade de tais significados. Um poeta finlandês normalmente diria que é sua tarefa perseguir esses objetivos – contra distintas “ameaças” externas (tais como a globalização). Isso necessariamente envolve uma idéia da poesia como um tipo superior da linguagem, e, portanto, de uma linguagem poética especializada que representa a cristalização de um “sentido de linguagem” da comunidade em qualquer momento dado – oferecendo, ao mesmo tempo, uma solução prática ao problema do sublime (e do belo) [4]. No entanto, todas as comunidades baseadas no domínio da língua (dos “significados comuns”), embora sejam apresentadas como modelos da Democracia, são ao mesmo tempo bastante repressivas e exclusivas, seletivas, hierárquicas e criadoras de hierarquias: em resumo, comunidades de classe. Portanto, qualquer noção de linguagem poética “boa”, “apta”, “profunda” etc. está em última análise relacionada com classe, isto é, comunal no próprio significado da palavra que vejo como problemático do ponto de vista da poesia. De fato: o enigma do significado poético não pode se reduzir ao uso “correto” nem ao uso incorreto da linguagem (apesar de que o último resulta mais produtivo): estou obrigado a dizer que a poesia (o tipo de poesia que me interessa) inclina-se por algo que vai além do correto ou incorreto, uma espécie de capacidade generalizada da linguagem (que ao mesmo tempo é uma perda generalizada da fala: gostaria de falar aqui do sublime linguó-fugo)[5].

Para se aproximar do potencial – alternativo – social e revolucionário desse tipo de poesia, afirmaria que nosso mundo – o mundo da Globalização – não é mais um mundo de comunidades lingüísticas no sentido descrito anteriormente. Sua linguagem dominante não é “aprendida” pelos falantes no sentido em que uma língua materna é assumida pelas comunidades lingüísticas. É claro que estou pensando no inglês falado como segunda ou enésima língua. As comunidades lingüísticas tradicionais associadas comumente com o estado-nação estão perdendo seu caráter unitário: em lugar de um tipo de finlandês, inglês, português, chinês “correto”, temos um nexo de linguagens especializadas que se fragmenta rapidamente (as linguagens das diversas ocupações, disciplinas, locais etc., para não falar dos muitos dialetos imigrantes). Tais linguagens especializadas, gírias, jargões, de fato evoluem com suas respectivas línguas gerais, mas não podem ser reduzidas a elas – as influências nas margens da linguagem com freqüência têm uma importância maior. De maior interesse para essa mudança (tanto para o futuro da poesia como para o futuro do mundo) é – esta é minha afirmação fundamental neste ensaio – que tal mudança parece não impedir as possibilidades de interação humana (como muitas vezes se afirma numa visão redutiva), mas, pelo contrário, tende a aumentá-las. Tratamos aqui novamente da questão da natureza da comunalidade humana. Como sugeri, comunhão e pertencer, um sentimento de unidade, com freqüência são vistas como mutuamente dependentes. Quero afirmar o contrário, ou, para abrir outra discussão: talvez a comunalidade seja entendida melhor como a experiência da linguagem do outro, uma língua que nunca será compreendida totalmente, nunca será “dominada”, mas, ao mesmo tempo, talvez por essa mesma razão, tem sentido para você, situa você num lugar do mundo – donde você então pode falar – donde, do ponto de vista da poesia, você apenas pode falar, não como “indivíduo”, nem mais como um certo “membro” da comunidade (um sujeito legal do Contrato Social), mas como uma singularidade, um único nodo numa multidão infinita. Você poderá começar a ver o que eu quero dizer com a possível relevância social do tipo de poesia que proponho aqui. De fato, a verdadeira dinâmica desse tipo de poesia aborda uma coisa de que o mundo em sua totalidade precisa urgentemente hoje em dia. É interessante notar que Negri também fala de algo parecido quando escreve: “Talvez [uma nova linguagem comum] tenha de ser um novo tipo de comunicação que opera não com base em semelhanças mas com base em diferenças: uma comunicação de singularidades.” Eu falaria da necessidade e da visão de um novo tipo de World Poetry que ainda não existe[6].

Vou tentar novamente voltar ao início: à Guerra, à Barbárie – e ao Capitalismo. Depois de tudo, a fragmentação e dissolução de que falo (que neste ponto deve ser evidente para o leitor e que considero promissora para a humanidade) de fato é gerada pelo Capitalismo, que também produz a “voracidade comunicativa e midiática”. Como separar – ou conciliar – essas tendências? Aludi antes aos quatro fundamentalismos políticos de nossa época – agora, sugiro entender a (banal) indústria midiática global como uma distorção comum a todos eles (como já se disse, até a organização Al Qaeda, no final, atua também no marco da mídia global). É típico dos fundamentalismos condensar ou simplificar a complexidade do mundo mediante algumas afirmações básicas e vazias (“Nós” contra os “Malfeitores”; “A Guerra Santa” contra os “Infiéis”) que contêm a estrutura do banal no sentido axiomático. Mas ao mesmo tempo contêm também a estrutura da ideologia no sentido da análise da ideologia marxista tardia, especialmente Gramsci e Althusser: funcionam como a “cola” que une a sociedade: “interpelam” os indivíduos para se tornarem sujeitos e os obrigam a fazer coisas em relação “inversa” a seu autêntico ser social – seja fazer ridículo num show de reality-TV ou pilotar um avião na direção das Torres Gêmeas. Lá, uma ideologia dominante e unificante; aqui, uma crescente fragmentação que requer um tipo totalmente novo e diferente de interação.

Na realidade, essas duas camadas, se é isso o que são, têm muito em comum (nenhuma delas se acha em lugar nenhum em estado puro). No entanto, experimentalmente, gostaria (como uma brincadeira séria) de tentar distingui-las conceitualmente e traçar uma linha de contradição entre elas. Para isso, farei uso do conceito de ideologia, fundamental na história do pensamento marxista (lembrando minha caracterização da poesia como anti-ideológica), por um lado, e também do papel central do trabalho imaterial, tanto na utopia comunista clássica como em discussões recentes da “economia de rede” (network economy em Castellanis, Negri e Hardt…). Tradicionalmente, na teoria marxista, a ideologia se situava na superestrutura, num nível isento de evolução, herdado da antiga sociedade, a ser eliminado para permitir o “desenvolvimento livre das forças produtivas” na revolução socialista (já conhecemos o resultado disso.). Posteriormente, durante o século XX, essa teoria foi substituída pela teoria gramsciana-althusseriana da “cola”, a qual apresentou imediatamente outro problema: como pensar na possibilidade de uma consciência revolucionária se desenvolver fora dessa ideologia onipresente (cf. nosso próprio problema em relação ao futuro da poesia)? Como ex-teórico marxista, sugiro que pensemos em nosso tempo como aquele no qual o Capitalismo, finalmente, entrou numa contradição com seus próprios alicerces[7], com sua própria superestrutura ideológica e sua ideologia dominante (afirmei antes que a fragmentação – positiva – é um produto do capitalismo). Apresento essa perspectiva não como algo original nem com a expectativa de conseqüências políticas, mas, pelo contrário, para continuar uma provocação que considero indispensável: se ainda procuramos que a poesia tenha relevância, “perspectiva e urgência” dentro desse esquema, estamos obrigados a situá-la – uma atividade que “nada produz”, a mais insignificante das artes – na base material e econômica da sociedade, como parte de suas forças produtivas.

Se isso parecer escandaloso (como, é claro, espero que seja: atuo aqui como o clown-poeta: fingindo apenas ser um teórico), considere-se o que muitos teóricos recentes vêem como a parte mais dinâmica da produção atual – o trabalho imaterial. Pense-se depois naquilo que caracteriza esse trabalho – seu progressivo “ser para si”, sua tendência à auto-suficiência (parte de todo trabalho intelectual). E depois, pense-se em como essas noções são exatamente os ingredientes centrais na velha utopia marxista do comunismo[8]. Existem pontos em comum. Tendo em conta o já dito, nada é mais necessário agora. Se há um futuro nesse sentido, a melhor maneira da poesia contribuir para ele é de se concentrar em cumprir seu papel, para onde isso a conduzir.

De fato, essa perspectiva da poesia da produção já aparece no ensaio de Régis e Alcir: falam de como o trabalho dos poetas de nosso tempo se caracteriza por uma produção “cada vez maior, mais prolixa, dentro de ambientes cada vez mais homogêneos”, e sobre “a conformidade da poesia com uma dimensão mediana de produção“, perguntando também: “Mas que criação real pode renunciar à transformação?” (minha ênfase). De fato, eu afirmaria que a maioria das questões pertinentes à poesia agora irá assumir a forma de uma questão sobre as (novas e mutáveis) condições de sua produção – e aqui, para variar, sou otimista: acredito que podemos não apenas “desnaturalizar o desastre e reconquistar a dor diante dele” mas também conquistar o “indiferentismo, [a] alienação e [o] tédio”, e até produzir algo “[para] fruição de uma vida amena” (Régis e Alcir).

Quase tudo o que tenho a dizer sobre essa possibilidade está relacionado com a internet – um meio que vejo tanto como uma expressão das mais importantes tendências do Capitalismo atual (a fragmentação etc. – apesar de, ou talvez porque, a evolução da internet em sua forma mais dinâmica se desenvolve fora da economia de troca em seu sentido tradicional) e como uma metáfora para as possibilidades de desafio a um Capitalismo tal. Atualmente a internet aparece já como o grande sonho de Jorge Luis Borges, embora parcialmente realizado, de uma biblioteca universal: para mim virou a terceira experiência (completamente lateral) de uma tradição fundamentalmente fora do “entendimento”. Muitos textos clássicos de Borges salientam o fato de que uma biblioteca generalizada, a disponibilidade imediata de tudo aquilo que já foi escrito, implica necessariamente a impossibilidade de uma classificação adequada: em outras palavras, o caos. Seriam o caos e, por conseguinte, também a barbárie e a estupidez, de fato, sempre maiores, se temos em conta a textualização da vida diária precipitada pela internet (blogs etc.): sintomaticamente, um novo encontro com a banalidade – em seu significado do cotidiano, o silenciado, o questionável: isto é, com toda a “proliferação redundante e prolixa do escrito” – tem sido crucial para a multifacetada poesia baseada na internet que surgiu nos últimos anos (cito aqui os poetas “flarfistas” norte-americanos[9], e de maneira mais geral o que se conhece com o nome de “Google sculpting”[10]; meu próprio “Google Poem Generator” também se relaciona com essas tendências). Isso, mais do que qualquer outro movimento na poesia contemporânea que conheço, generaliza a idéia de poesia como pensamento que chega até nós de outros lugares e que não encontramos como sujeitos “pertencentes”, e sim como singularidades “que fazem que uma multidão entre numa outra multidão” (Deleuze). Foi isso o que quis dizer (talvez com algum exagero) quando falei que nosso tempo “não nos pertence como já nos pertenceu”. A poesia da internet é nova e ancestral ao mesmo tempo; por isso consegui reativar certos dilemas das poesias antiquadas que críamos ter abandonado para sempre[11].

A poesia baseada diretamente na internet é ainda um fenômeno relativamente recente; localizado, até onde sei (de maneira evidentemente limitada), principalmente na Finlândia e na América do Norte. No entanto, essas experiências me levam a prever que o uso dos buscadores vai virar ubíquo daqui a alguns anos: uma mudança nas condições de produção da poesia – e/ou transformações que permitam aos poetas verem seu trabalho como produção, algo que sempre foi. A outra dimensão da internet para a poesia, o uso como meio de publicação individual, é universal, e talvez seja ainda mais importante. A meu ver, oferece uma solução ao “encolhimento da visada poética ou da destinação da poesia” mencionadas no ensaio de Régis e Alcir. Aqui o problema faz parte da solução. Eu afirmaria que é precisamente a possibilidade de publicar para poucos, de “colega para colega”, no bom sentido, sem se importar com quantas pessoas realmente lêem – e concordando com as leis da economia de rede – o que virou o fator mais importante no aumento da quantidade de e acesso à poesia séria: em termos econômicos, nossa comunidade mudou de um crescimento extensivo para um crescimento intensivo. Isso também pode significar que a poesia séria pode se liberar agora do jugo da economia de mercado – de pragas como “condomínios de semelhantes” e “práticas corporativas” (Régis e Alcir). Pode ser até que, mesmo nesse caso, às vezes a “atividade paroquial ofend[a]-se com a crítica e o debate”; isso irá desaparecer gradualmente (e talvez até mude a natureza de Poetry Wars.)[12]. E, num futuro talvez mais distante, todas essas transformações talvez contribuam também para a realização do mesmo objetivo da utopia do comunismo: a erradicação do sistema atual dos direitos autorais. De fato, numa época em que o trabalho imaterial virou a forma mais importante de produção, a expropriação de seus resultados (que, como todos sabemos, pertencem a todos) e sua transformação em propriedade privada poderia ser talvez a forma de exploração que deve ser eliminada mais urgentemente.

Poderia continuar. O que já disse, disse como um comunista não esquerdista -um oximoro que espero ajude a liberar o potencial revolucionário da poesia do peso das (antigas) identificações ideológicas. De novo, se a poesia realmente possui tal potencial, este só poderá ser realizado pela poesia mesma (e não apenas porque pode não se encontrar sozinha) e somente para seu próprio deleite. Se se dirigir à sociedade, é apenas para perguntar “como você é possível?” Talvez até arriscaria dizer que a poesia é capaz de se auto-exilar da República de Platão, mudando-se para outras novas Democracias. Talvez não seja suficiente dizer, hoje em dia, que a arte, para não falar na poesia, existe para si. Eu diria então que existe para a idéia de “ser para si”. Isso constitui sua política, sua “perspectiva e urgência” hoje. O que não impede ninguém de ser um esquerdista, se quiser. Ou a mim de ser um não-comunista – talvez apenas uma brincadeira. Gostaria de concluir minha homilia com uma pequena diferença de opinião: ao contrário do Régis e do Alcir, para mim as palavras “frivolidade” e “afetação” não necessariamente indicam irresponsabilidade. A meu ver, nossa poesia mais nova ainda não leva o humor suficientemente a sério – abaixo com a “poesia leve”, adeus poesia “séria”: faço votos por uma poesia na qual “o humor é tão negro que nem dá para vê-lo”, como alguém uma vez falou da poesia de Charles Bernstein. Ou, nas palavras de Antonio Negri (quem não creio que concordaria com o que eu disse antes[13]):

“Nos séculos XVI e XVII, no meio da revolução que construiu a modernidade, Gargântua e Pantagruel são os gigantes emblemáticos das figuras extremas da liberdade e da invenção: eles atravessam a revolução e nos propõem a tarefa gigantesca de nos tornarmos livres. Precisamos hoje em dia de novos gigantes e de novos monstros, capazes de juntar natureza e história, trabalho e política, arte e invenção, e de nos ensinar o novo poder que o nascimento do General Intellect, a hegemonia do trabalho imaterial, as novas paixões abstratas e a atividade da multidão atribuem à humanidade. Precisamos de um novo Rabelais, ou talvez de muitos novos Rabelais.”

1 Sempre disse que foi justamente a redação de declarações – numa situação em que o Partido estava seriamente dividido em duas facções que, no entanto, estavam obrigadas a permanecer juntas pelo poderoso vizinho soviético – que me fez entender a natureza retórica de toda a escrita (como se diz uma coisa freqüentemente se torna mais importante do que aquilo que se diz). A existência de duas facções também me obrigava a dar dois sentidos a cada frase – o que lembra muito certa poesia modernista!

2 Na Finlândia, no começo dos anos 1990, eu não era o único a me interessar pela Language Poetry. A chamada Geração dos 90 da poesia finlandesa – poetas quase todos com dez ou vinte anos menos do que eu – também leu Charles Bernstein, Bruce Andrews e Ron Silliman, mas, a meu ver, para “raciocinar” ou “racionalizar” do jeito que mencionei antes. De fato, essas leituras eram feitas da maneira tipicamente finlandesa em que qualquer “malandragem estrangeira” sempre se “depura ao extremo”, até chegar ao “âmago racional” que depois será neutralizado para se ter a certeza de que não produzirá nada perigoso aqui. Logo, falarei mais dessa mentalidade tipicamente provinciana.

3 Confira como Marx, na sexta tese sobre Feuerbach, critica este último por (1) assumir um “indivíduo abstrato – isolado -,” que, portanto, está (2) obrigado a compreender a “essência” como uma “generalidade interna e muda que naturalmente une os múltiplos indivíduos” (minha ênfase).

4 A atitude que descrevo aqui já foi resumida por Pound no slogan: “Purificar a linguagem da tribo.” Defendo a noção de uma poesia que tentasse continuamente plurificar as linguagens do trivial.

5 Sim, num certo sentido, questiono a grande idéia de Wittgenstein de que “o significado de uma palavra é seu uso na linguagem”. Meu termo “uma capacidade generalizada para a linguagem” poderia apontar na direção da “gramática generalizada” de Noam Chomsky; devo essa revelação a Oren Izenberg (cf. Language Poetry and collective life. Critical Inquiry, v. 30, n. 1, [2003]). Atualmente, uma tendência notável que procura o que eu chamo de sublime “linguó-fugo” [language-fugal sublime] é a “escrita conceitual” [Conceptual Writing] (Craig Dworkin, Kenneth Goldsmith, Darren Weshler-Henry). Essa tendência para o conceitualismo, como reação às novas condições textuais da era digital, talvez esteja presente em muita da escrita contemporânea com relevância. É claro que o termo “linguó-fugo” que uso aqui se iniciou com um tipo de escrita chamada “línguo-centrada” [language-centered].

6 Algumas coordenadas desse tipo de World Poetry seriam: independência das literaturas nacionais, até institucionalmente (lembro a Weltliteratur de Goethe); uma mistura de línguas; empréstimo de estruturas – rítmicas e sintáticas – de outras línguas; escrever em línguas não maternas; inventar novas línguas ad hoc; tentativas conscientes de escrever para um público heterogêneo e não predeterminado. Desnecessário acrescentar que esse tipo de perspectiva se opõe abertamente às ideologias de “conflito” ou “diálogos” entre “culturas”: de fato, vejo ambas as perspectivas se complementando, formando o ingrediente central da ideologia capitalista atual (veja-se a seguir), com conseqüências potencialmente perigosas para a liberdade de expressão – cf. a declaração de um influente membro conservador do parlamento na recente controvérsia da caricatura, supostamente a favor de “diálogo” e “entendimento”: “Infelizmente há elementos [neste país] que atuam com irresponsabilidade e são capazes de pôr em perigo a segurança do país todo. Assim, as autoridades devem tomar todas as medidas legislativas para eliminar tais imagens ofensivas antes que elas possam causar danos irreparáveis [ao país e à população]. O Governo também deve considerar seriamente a maneira de promover uma nova legislação […] para evitar atividades que possam levar a conseqüências totalmente imprevisíveis, tanto economicamente quanto no que respeita a vidas humanas.” (A ênfase nos termos macarthistas é minha.)

7 Acredito que a atual violência no estado de São Paulo e em outras regiões do Brasil pode e deve ser vista como um exemplo desse conflito. É mais um exemplo da incapacidade da ideologia dominante e “unificante” de acompanhar as situações atuais e manter “a paz e a ordem”. Também poderia ser vista como um exemplo de como a militarização da ideologia que descrevi fomenta a violência “na base”. Mas, o mais importante talvez seja que nos faz lembrar como as “camadas” das quais falei se misturam, como é absolutamente impossível demarcar um limite claro (de combate) entre os de “cima” e os de “baixo” hoje em dia. Nos antigos dias (de combate), teria se dito que o PCC objetivamente fortalece a ideologia dominante. É claro que hoje em dia isso não acontece o suficiente. A tarefa da poesia. O meu. (Esta nota foi acrescentada na manhã do dia 16 de maio 2006, hora da Finlândia.)

8 Revisitando novamente as Teses sobre Feuerbach de Marx: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diversas maneiras; o fundamental agora é transformá-lo.” Poderia escrever-se uma história dos movimentos revolucionários dos séculos XIX e XX estudando-se como “o fundamental” de Marx foi interpretado – inclusive por Marx mesmo – precisamente na maneira “suja e judaica” criticada nas teses: sempre concebendo a “prática” como algo fora do pensamento, e reduzindo este ao papel de “indicar pautas” etc. “O fundamental” não pode ser deixar atrás o pensamento, mas torná-lo uma força ativa e, sim, produtiva.

9 A iniciativa flarfista (Gary Sullivan, K. Silem Mohammad, Michael Magee, Teemu Manninen e outros) é uma tentativa de escrever poesia “ruim” com um conteúdo “chocante”, “politicamente incorreto”, até mesmo do ponto de vista do autor, muitas vezes fazendo uso do “lixo” da internet, da linguagem das chat-rooms etc.

10 As tentativas mais importantes de poesia “Google” publicadas em livro, a meu ver, são Word in Progress de Aki Salmela (um poeta finlandês que escreve em “inglês”), Deer Hunt Nation de K. Silem Mohammad e Lyhyellä matkalla ohuesti jäätyneen meren yli de Janne Nummela (finlandês).

11 Como já disse, vejo a iniciativa flarfista como uma versão moderna do projeto das Baladas líricas (1798) de Wordsworth e Coleridge: o mesmo aproveitamento da linguagem do “homem comum”, a mesma coleção de lembranças de emoções (ou e-moções) num estado tranqüilo (leia-se: inquieto!). Também há um forte elemento “confessional” em Flarf, e pode ser visto como um regresso à/da estética normativa (para escrever “mal” é preciso ter uma noção do que é “bom”).

12 Tudo isso se relaciona com a questão da poesia como uma ocupação, tratada de maneira muito útil por Régis e Alcir em seu ensaio (a poesia como um hobby em lugar de “um modesto ganha-pão”). Só direi aqui que sempre gostei da formulação de Marx, na Ideologia alemã, a respeito da “abolição da divisão do trabalho” na “sociedade comunista”, na qual seria possível “caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado à noite e fazer críticas depois do jantar” (substituam-se por suas ocupações favoritas).

13 Minhas próprias ressalvas a respeito do pensamento de Negri e Hardt têm a ver com sua forte dependência da tradição do trabalhismo italiano e sua fascinante idéia de que todo o desenvolvimento do Capitalismo se relaciona com as lutas operárias – isto é, “quando há uma greve, novas máquinas são inventadas”. Para mim, isso leva a uma glorificação não justificada de muitos “movimentos” atuais que na verdade são bastante “reacionários” do ponto de vista comunista (pense-se novamente no PCC brasileiro). Por outro lado, nem tudo que aponta para uma utopia comunista chega na forma de “lutas”. Talvez há tempos tenha deixado de ser uma questão de “lutas” em qualquer sentido. Também me incomoda da mesma maneira o uso do conceito de “resistência” em Deleuze.